Lucas Guesser
Editor-Chefe
Apresentamos com imensa satisfação a 6ª edição (Setembro de 2026) da Revista Sul-Brasileira de Contabilidade e Economia. Consolidando nossa missão de conectar a vanguarda acadêmica às transformações fáticas da sociedade, esta edição reúne quatro artigos de elevado mérito técnico e rigor científico, abordando a fiscalização tributária digital, a revolução computacional nos escritórios contábeis, a infraestrutura estratégica para a eletromobilidade catarinense e a trajetória histórica do crédito de fomento regional.
Abrimos esta edição com a pesquisa de Elias Pereira Vieira e Luan Philippi Machado sobre as Inconsistências na Malha Fiscal Eletrônica em Santa Catarina. A partir de um minucioso levantamento empírico com 61 organizações contábeis de Criciúma, os autores desvendam o impacto do aplicativo da SEF/SC na rotina dos profissionais. O estudo revela que a esmagadora maioria dos escritórios enfrenta inconsistências recorrentes — sobretudo a omissão de notas de entrada e de receita via cruzamento PGDAS/meios de pagamento —, evidenciando que a causa basilar decorre não da inexperiência dos contadores, mas da complexidade estrutural das obrigações acessórias digitais.
Na sequência, o artigo de Gabriele Gil Gomes, Pedro Jose Von Mecheln, Silvio Parodi Oliveira Camilo e Merisandra Côrtes de Mattos aborda as Ferramentas Computacionais e Inteligência Artificial na Gestão Contábil. Fundamentado em ampla pesquisa conduzida junto a profissionais registrados no CRCSC, o estudo traça o panorama da automação robótica (RPA), OCR e assistentes virtuais de IA, culminando na apresentação de uma cartilha orientativa para superar a assimetria tecnológica que ainda desafia os escritórios contábeis do estado.
O terceiro artigo, A Transição para a Eletromobilidade em Santa Catarina: O Papel da Celesc Distribuição na Infraestrutura de Recarga e Gestão da Rede, de nossa autoria, examina a engenharia regulatória e de potência que colocou Santa Catarina na liderança da recarga veicular pública. Avaliam-se as fases do Corredor Elétrico Catarinense, o modelo tarifário implantado pela Celesc e os complexos desafios técnicos de distorções harmônicas e impacto de ponta na rede elétrica.
Fechando esta edição, Yuri Damasio, sob orientação dos professores Alcides Goularti Filho e Ignacio Trucco, apresenta um estudo aprofundado sobre o BRDE e suas Transformações no Desenvolvimento Econômico de Santa Catarina. O trabalho reconstrói a trajetória do banco desde a superação da liquidação extrajudicial em 1992 até a marca histórica de captação por Letras de Crédito do Desenvolvimento (LCD) em 2024, atestando a indispensabilidade dos bancos públicos de fomento para sustentar o investimento de longo prazo e amortecer choques cíclicos.
Desejamos a todos os leitores, pesquisadores e operadores do mercado uma experiência intelectual estimulante e inspiradora.
Resumo: A digitalização dos processos fiscais tem ampliado o controle tributário nacional, com destaque para a malha fiscal eletrônica de Santa Catarina, desenvolvida pela SEF/SC em 2020 para identificar divergências nas informações prestadas pelos contribuintes através do cruzamento automatizado de obrigações acessórias. Este estudo analisa as inconformidades relacionadas à malha fiscal sob a ótica das organizações contábeis de Criciúma/SC. Trata-se de pesquisa qualiquantitativa, descritiva e de levantamento, mediante questionário estruturado aplicado a 61 profissionais contábeis entre abril e maio de 2026. Os resultados evidenciaram que 98,4% dos respondentes já enfrentaram inconsistências, sendo a omissão de nota fiscal de entrada a mais recorrente (37,7%), seguida pela omissão de receita (29,5%), tendo os erros operacionais na escrituração apontados por 54,1% como principal causa. Conclui-se que as inconformidades decorrem da complexidade estrutural das obrigações acessórias digitais e que 91,8% dos profissionais reconhecem a malha fiscal como instrumento legítimo de conformidade tributária.
Palavras-chave: Fiscalização tributária; Escrituração fiscal digital; Obrigações acessórias; ICMS; Compliance tributário.
O avanço das tecnologias de informação impulsionou a transformação da contabilidade tradicional, exigindo dos profissionais competências analíticas e estratégicas (Trindade et al., 2025). No âmbito fazendário estadual, a Secretaria de Estado da Fazenda de Santa Catarina (SEF/SC), por intermédio da Diretoria de Administração Tributária (DIAT) e do Grupo Especialista em Planejamento Fiscal (GPLAM), implementou em setembro de 2020 o aplicativo Malha Fiscal Eletrônica.
Esse sistema opera por cruzamento automatizado de dados provenientes da Escrituração Fiscal Digital (EFD ICMS/IPI), Declaração do ICMS e Movimento Econômico (DIME), Nota Fiscal Eletrônica (NF-e) e Programa Gerador do Documento de Arrecadação do Simples Nacional (PGDAS-D) (SEF/SC, 2020). Em 2023, o sistema fiscalizou 269 mil contribuintes e recuperou R$ 601 milhões em receitas públicas, solucionando preventivamente 85% dos casos sem lavratura imediata de autos de infração (SEF/SC, 2024).
Diante desse cenário e do processo de extinção gradual da DIME até o segundo semestre de 2026 em prol da EFD (SEF/SC, 2025), este estudo investiga: quais são as inconformidades recorrentes na malha fiscal catarinense, sob a percepção das organizações contábeis do município de Criciúma?
A pesquisa classifica-se como qualiquantitativa, descritiva e de levantamento (survey), estruturada com base em Gil (2019). O instrumento de coleta contemplou 15 questões objetivas e uma discursiva, aplicado a profissionais de escritórios contábeis de Criciúma/SC entre 07 de abril e 22 de maio de 2026. A amostragem final reuniu 61 respostas válidas, obtidas via colaboração do Sindicato dos Contabilistas de Criciúma (SINDCONT) e busca ativa institucional. As variáveis categóricas foram tratadas por estatística descritiva e escore ponderado (escala de 1 a 3 para grau de dificuldade), enquanto os relatos abertos foram submetidos à análise de conteúdo (Bardin, 2016).
Quanto ao perfil, 60,7% dos respondentes atuam há mais de 10 anos na área contábil e 50,8% trabalham especificamente no setor Fiscal/Tributário. No tocante à carteira de clientes, predominam optantes do Simples Nacional (41,0%), seguidos por escritórios que atendem todos os regimes (29,5%), em atividades de comércio, indústria e serviços diretamente sujeitas ao ICMS (75,4%).
A pesquisa revelou que 98,4% dos profissionais já enfrentaram apontamentos na malha fiscal, com 54,1% vivenciando ocorrências com periodicidade mensal. A Tabela 1 sintetiza a hierarquia das inconsistências por grau de resolução e incidência:
| Inconsistência Identificada | Fácil (%) | Médio (%) | Difícil (%) | Score | Rank |
|---|---|---|---|---|---|
| Omissão de NF de saída | 67,2% | 27,9% | 4,9% | 1,38 | 1º |
| Descumprimento de obrigações acessórias | 65,6% | 31,1% | 3,3% | 1,38 | 1º |
| Omissão de NF de entrada | 62,3% | 31,1% | 6,6% | 1,44 | 3º |
| Inconsistências do Simples Nacional | 54,1% | 41,0% | 4,9% | 1,51 | 4º |
| Erro de classificação fiscal (CFOP/NCM) | 55,7% | 32,8% | 11,5% | 1,56 | 5º |
| Divergência NF-e / EFD ICMS/IPI | 49,2% | 41,0% | 9,8% | 1,61 | 7º |
| Omissão de receita (PGDAS x Cartão/PIX) | 45,9% | 36,1% | 18,0% | 1,72 | 9º |
| Crédito indevido de ICMS | 36,1% | 49,2% | 14,8% | 1,79 | 11º |
Em relação às tipologias mais frequentes, a omissão de nota fiscal de entrada liderou com 37,7% dos apontamentos globais (sendo que 74% deste subgrupo a enfrenta mensalmente), seguida pela omissão de receita com 29,5% e omissão de saída com 11,5%. Entre clientes do Simples Nacional, a omissão de receita foi apontada por 60% dos respondentes como a principal dor de cabeça, originada no cruzamento do faturamento declarado no PGDAS-D com as informações eletrônicas das adquirentes de cartão e arranjos bancários.
Quanto às causas geradoras, 54,1% dos profissionais apontaram erros operacionais na escrituração como fator predominante, à frente de deficiências de controle interno (13,1%), falhas em sistemas ERPs (11,5%) e desconhecimento normativo (11,5%). Notavelmente, entre os que apontaram erros operacionais, 66,7% possuem mais de 6 anos de experiência e 60,7% sempre realizam dupla conferência antes da transmissão, comprovando que o problema não decorre de inaptidão técnica individual, mas da sobrecarga decorrente de regras fiscais voláteis.
Sob a ótica do impacto no escritório contábil, o retrabalho operacional obteve o maior escore ponderado (4,21 em 5,0), seguido pela necessidade de ampliação dos controles internos (4,13) e elevação do risco de autuações (4,02). No âmbito qualitativo, 29% das manifestações abertas criticaram a excessiva morosidade do sistema SAT/SEF para baixar pendências já saneadas, e 19,4% alertaram para distorções graves geradas pela equiparação indiscriminada de transferências via PIX (aportes de capital e empréstimos de sócios) a faturamento mercantil tributável.
A investigação empírica atesta que a malha fiscal catarinense opera como mecanismo eficiente e preventivo de controle arrecadatório, reconhecida como legítima por 91,8% dos contadores de Criciúma. Não obstante, o modelo repassa substancial ônus de retrabalho às empresas contábeis. Recomenda-se que o fisco estadual implemente critérios mais inteligentes de segregação contábil nos cruzamentos de pagamentos instantâneos (PIX) e agilize o processamento de retificações, fortalecendo a conformidade cooperativa preconizada pelo compliance tributário contemporâneo.
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016.
BEZERRA, S. V.; NUNES, P. R. C.; RODRIGUES, R. C. Compliance tributário: benefícios e pilares para sua implementação. In: Anais do X EMPRAD, Fortaleza: UNIFOR, 2023.
GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2019.
SANTA CATARINA. Secretaria de Estado da Fazenda (SEF/SC). Malhas Fiscais: Fazenda arrecada R$ 601 milhões em fase de autorregularização. Florianópolis: SEF/SC, 2024.
TRINDADE, J. L. et al. Contabilidade digital: desafios do profissional contábil com o avanço da tecnologia. Interference Journal, v. 11, n. 2, p. 3329–3349, 2025.
Resumo: Avanços tecnológicos têm revolucionado a contabilidade, contexto no qual ferramentas computacionais e a Inteligência Artificial (IA) vêm conquistando espaço decisivo na automação de processos, auditoria e geração de relatórios de apoio decisório. O objetivo deste estudo é identificar as principais contribuições proporcionadas por ferramentas de computação e algoritmos de IA no aprimoramento das rotinas contábeis no estado de Santa Catarina. A pesquisa utiliza método dedutivo, natureza aplicada e abordagem descritiva, operacionalizada via survey eletrônico encaminhado aos profissionais registrados no CRCSC, obtendo 100 respostas válidas, associada a revisão sistemática na base Scopus. Os resultados revelam que, embora 62% das organizações possuam rotinas mapeadas, apenas 30% empregam soluções avançadas de automação e IA, denunciando uma lacuna de capacitação. Como contribuição aplicada, estruturou-se uma cartilha classificando ferramentas de OCR, RPA, NLP e plataformas de workflow para escritórios contábeis.
Palavras-chave: Gestão contábil; Inteligência artificial; Automação robótica (RPA); Reconhecimento óptico (OCR); Eficiência operacional.
A evolução dos sistemas integrados e a introdução de modelos de aprendizado de máquina e automação inteligente vêm redefinindo o exercício profissional das Ciências Contábeis. Atividades analíticas de conciliação bancária, validação de arquivos do SPED e atendimento ao cliente passam a demandar celeridade incompatível com rotinas exclusivamente manuais (Schwindt & Costa, 2021). A inteligência artificial permite liberar o capital humano das atividades operacionais repetitivas para concentrá-lo no planejamento tributário e na consultoria estratégica de negócios.
Contudo, a assimilação de tais tecnologias pelo mercado brasileiro ainda ocorre em ritmo desigual. Estudos internacionais (Alkan, 2022; Lehner et al., 2022) salientam que o sucesso da simbiose homem-máquina na área financeira repousa no mapeamento estruturado de processos e na correta parametrização de ferramentas de Automação Robótica de Processos (RPA) e Processamento de Linguagem Natural (NLP).
O estudo caracteriza-se como pesquisa aplicada e descritiva. O procedimento empírico envolveu duas frentes: a) Levantamento bibliográfico estruturado na base Scopus entre 1995 e 2023 com os descritores "accounting" AND "artificial" AND "intelligence", selecionando os 15 estudos seminais mais citados internacionalmente; b) Pesquisa de levantamento (survey) mediante questionário eletrônico disparado pelo Conselho Regional de Contabilidade de Santa Catarina (CRCSC) para 22.865 contadores, alcançando 100 respostas válidas completas.
A investigação evidenciou um paradoxo gerencial nos escritórios catarinenses: enquanto 62% das organizações declaram possuir processos e rotinas contábeis definidos formalmente, apenas 30% utilizam ativamente ferramentas computacionais de IA para automatizar suas tarefas cotidianas. Os demais 70% apontam falta de orientação técnica, custos de implantação ou desconhecimento prático sobre as soluções existentes no mercado.
No tocante aos processos com maior potencial de automação, a escrituração de notas fiscais (importação de XML e conciliação de extratos bancários) e a apuração de guias de recolhimento tributário despontam como as tarefas prioritárias. Para responder a essa demanda, a Tabela 2 sintetiza a taxonomia das ferramentas investigadas:
| Categoria Tecnológica | Aplicações e Plataformas Investigadas | Utilidade Prática no Escritório Contábil |
|---|---|---|
| OCR e Extração de Dados | Adobe Acrobat DC, Abbyy FineReader, AWS Textract, Google Lens | Digitalização de contratos, extração automática de dados de faturas, recibos e extratos em PDF não estruturados. |
| RPA (Automação de Processos) | UiPath, Automation Anywhere, Blue Prism, Power Automate, NEVA | Importação de NF-e, transmissão de obrigações ao SPED, conciliação contábil/fiscal e rotinas de backup sem intervenção humana. |
| Agentes de IA e NLP | ChatGPT, Dialogflow, IBM Watson Assistant, Amazon Lex, Copilot | Atendimento automatizado a dúvidas correntes de clientes (prazos, certidões), análise preditiva de séries temporais e mineração de dados. |
| Sistemas de Gestão Especializados | Acessórias, Gestta, Sieg Iris, Tarefas SCI, GClick, Taskdo | Monitoramento de certidões negativas (CNDs), controle de calendário fiscal municipal/estadual e captura automatizada no e-CAC. |
| Workflows e Gestão de Tarefas | Trello, Asana, Monday.com, Jira, Microsoft Planner, Zapier | Parametrização do fluxo de trabalho das equipes, eliminação de gargalos operacionais e monitoramento de SLA por cliente. |
O estudo demonstrou que o emprego combinado de ferramentas de OCR e RPA elimina erros de digitação e reduz em até 70% o tempo despendido nas fases preliminares de escrituração fiscal. Por sua vez, a introdução de assistentes virtuais baseados em NLP permite o atendimento 24/7 a questionamentos corriqueiros de clientes empresariais, aliviando as centrais de atendimento dos escritórios.
A pesquisa atesta que a Inteligência Artificial e a robotização deixaram de ser horizontes prospectivos para se tornarem imperativos de sobrevivência de mercado. A baixa taxa de utilização (30%) em Santa Catarina revela um amplo campo a ser explorado pelas entidades de classe mediante cursos de capacitação técnica aplicada.
Ao estruturar e documentar processos internos, o escritório contábil cria a base necessária para que algoritmos de aprendizado supervisionado executem tarefas repetitivas com precisão, viabilizando a elevação do contador ao posto de consultor financeiro e estratégico do cliente.
ALKAN, B. Ş. Como o blockchain e a inteligência artificial afetarão os sistemas de informação contábil baseados em nuvem? In: O impacto da inteligência artificial na governança. Springer, 2022.
BALDWIN-MORGAN, A. A. Integrating artificial intelligence into the accounting curriculum. Accounting Education, v. 4, n. 3, p. 217–229, 1995.
LEHNER, O. M. et al. Artificial intelligence-based decision-making in accounting and auditing: Ethical challenges and normative thinking. Accounting, Auditing & Accountability Journal, 2022.
SCHWINDT, M. C. S.; COSTA, S. A. Os principais impactos da inteligência artificial na contabilidade gerencial. In: Anais do USP International Conference in Accounting, 2021.
SULEIMAN, A. et al. How artificial intelligence changes the future of the accounting industry. International Journal of Economics and Business Administration, 2020.
Resumo: A eletrificação do transporte rodoviário constitui um dos pilares centrais da descarbonização global e da transição energética. No Brasil, as distribuidoras de energia desempenham papel estratégico como viabilizadoras da infraestrutura de recarga e gestoras do impacto dessa nova carga concentrada sobre o Sistema Elétrico de Potência (SEP). Este artigo analisa o papel da Centrais Elétricas de Santa Catarina (Celesc Distribuição) no fomento à eletromobilidade no estado de Santa Catarina. A partir de metodologia descritivo-analítica baseada em relatórios institucionais da Celesc, normativas da ANEEL e dados da ABVE/Detran-SC, examinam-se a evolução do "Corredor Elétrico Catarinense", o modelo tarifário implantado, a correlação com o crescimento da frota eletrificada e os reflexos operacionais na rede (estabilidade de tensão, curvas de carga e distorções harmônicas). Os resultados evidenciam que a atuação proativa da concessionária mitigou a "ansiedade de autonomia", posicionando SC como referência nacional em capilaridade de recarga pública.
Palavras-chave: Mobilidade elétrica; Celesc Distribuição; Corredor elétrico; Infraestrutura de recarga; Qualidade da energia elétrica.
No cenário nacional de transição energética, a substituição de veículos movidos a combustíveis fósseis por veículos elétricos a bateria (BEV) e híbridos plug-in (PHEV) propicia expressiva descarbonização no ciclo well-to-wheel (do poço à roda), haja vista que mais de 85% da matriz elétrica brasileira advém de fontes renováveis (Souza et al., 2021). Todavia, a adesão dos consumidores a essa tecnologia dependia da superação da "ansiedade de autonomia" (range anxiety).
O marco legal da atividade de recarga foi consolidado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) por meio da Resolução Normativa nº 819/2018 (incorporada à REN nº 1.000/2021), que classificou a recarga veicular como prestação de serviços comerciais com livre fixação de preços, vedando o tratamento como revenda irregular de energia. Simultaneamente, incentivou as concessionárias a desenvolverem projetos-piloto de infraestrutura mediante Chamadas Estratégicas de P&D (Chamada nº 22/2018).
A Celesc Distribuição, atendendo mais de 3 milhões de unidades consumidoras em 264 municípios, estruturou em cooperação com a Fundação CERTI o Corredor Elétrico Catarinense. Iniciado experimentalmente em 2016 em Florianópolis, o programa expandiu-se pelas rodovias estruturantes do estado — BR-101 (litoral), BR-282 (ligação Leste-Oeste), BR-470 (Vale do Itajaí) e BR-116 (Planalto Serrano) —, estabelecendo postos de abastecimento elétrico a cada 50 ou 100 km.
| Fase do Projeto | Período | Marcos Técnicos e Operacionais | Abrangência Territorial |
|---|---|---|---|
| Fase Piloto / P&D | 2016 – 2019 | Estações experimentais semirrápidas; testes de interoperabilidade; recarga pública gratuita subsidiada pelo P&D. | Grande Florianópolis e eixos pontuais da BR-101 (Joinville, Balneário Camboriú, Criciúma). |
| Expansão e Consolidação | 2020 – 2023 | Eletropostos rápidos multi-padrão; desenvolvimento de aplicativo mobile proprietário com telemetria via OCPP. | Cobertura de mais de 1.500 km rodoviários, interligando 35 municípios polos. |
| Escala e Comercialização | 2024 – 2026 | Transição para tarifação por kWh consumido; estações ultrarrápidas em DC (até 150 kW); integração rumo a 100 cidades. | Capilarização no Meio-Oeste, Planalto Serrano e Extremo-Oeste catarinense. |
A arquitetura física implementada pela Celesc foi dividida em dois eixos operacionais para assegurar total interoperabilidade:
Em consonância com a maturidade do mercado, a Celesc instituiu a cobrança proporcional à energia efetivamente transferida:
Fixou-se a tarifa referencial de R$ 1,99 por kWh para carregamento semirrápido (AC) e R$ 2,29 por kWh para carga rápida (DC) (Celesc, 2024; NSC Total, 2026). A receita arrecadada retroalimenta os custos operacionais de conectividade e manutenção, resguardando os consumidores comuns de energia contra subsídios cruzados indesejados.
O avanço da infraestrutura pública alavancou o licenciamento veicular: em meados de 2026, Santa Catarina ultrapassou a marca de 60 mil veículos eletrificados circulantes (Detran-SC, 2026), figurando entre os estados com maior índice de eletrificação per capita do país.
Essa carga concentrada, todavia, gera impactos diretos na rede de distribuição (Fernandes, 2024):
A experiência da Celesc consolidou Santa Catarina como um dos corredores verdes mais robustos da América do Sul. Para o ciclo pós-2026, a distribuidora avança no desenvolvimento de recarga inteligente (smart charging), precificação horossazonal (Tarifa Branca), hubs solares com baterias estacionárias (BESS) e integração veículo-rede (V2G), assegurando que o crescimento da mobilidade elétrica ocorra com estrita confiabilidade operativa e sustentabilidade socioeconômica.
AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA (ANEEL). Resolução Normativa nº 1.000/2021. Brasília: ANEEL, 2021.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DO VEÍCULO ELÉTRICO (ABVE). Anuário da Eletromobilidade Brasileira. São Paulo: ABVE, 2024.
CENTRAIS ELÉTRICAS DE SANTA CATARINA (CELESC). Projeto Corredor Elétrico Catarinense: Relatório de Encerramento e Metas de Expansão. Florianópolis: Celesc, 2023.
FERNANDES, V. M. D. Avanço da mobilidade elétrica, alteração da curva de carga e impactos nas redes de distribuição. Dissertação (Mestrado em Engenharia Elétrica) – UTFPR, Curitiba, 2024.
FUNDAÇÃO CERTI. Eletroposto Celesc: Desenvolvimento e Operacionalização da Infraestrutura de Mobilidade Elétrica. Florianópolis: CERTI, 2024.
Resumo: O artigo analisa a trajetória institucional e as operações financeiras do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) no período de 1992 a 2024, após o encerramento do regime de liquidação extrajudicial decretado em 1989. Sob a perspectiva das teorias desenvolvimentista e schumpeteriana, discute-se o papel do crédito público de longo prazo como indutor do investimento produtivo, inovação e mitigação de ciclos econômicos recessivos. A pesquisa é bibliográfica e documental, fundamentada nos relatórios anuais de administração e demonstrações financeiras do banco. Os resultados demonstram sólida sustentabilidade operacional, com o BRDE passando de um agente repassador quase exclusivo do BNDES nos anos 2000 para uma instituição com fontes diversificadas de captação (bancos multilaterais externos, Letras de Crédito do Desenvolvimento - LCD e Letras Financeiras). Destaca-se a forte capilaridade do crédito concedido em Santa Catarina para o agronegócio, PMEs, cooperativas e saneamento, com 82% das operações alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Palavras-chave: Bancos de desenvolvimento; BRDE; Crédito de longo prazo; Economia catarinense; Financiamento regional.
O crédito de longo prazo é condição sine qua non para que as firmas realizem investimentos em ativos imobilizados, pesquisa e expansão da capacidade produtiva (Schumpeter, 1997; Hilferding, 1985). Em economias de industrialização retardatária, o sistema bancário privado tradicional concentra-se em operações de curto prazo e de elevada liquidez, impondo ao Estado o papel de financiador do desenvolvimento (Cardoso de Mello, 1988; Mazzucato, 2014).
Nesse contexto, em 15 de junho de 1961, os governadores Celso Ramos (SC), Leonel Brizola (RS) e Ney Braga (PR) firmaram o convênio de criação do Conselho de Desenvolvimento do Extremo Sul (CODESUL) e do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), com o objetivo de combater as assimetrias regionais geradas pela concentração industrial no eixo Rio-São Paulo após o Plano de Metas (Fonseca, 1988). Em Santa Catarina, o banco operou articulado ao Banco de Desenvolvimento do Estado (BDE/BESC) e aos planos de metas estaduais (PLAMEG I e II).
Após anos de expansão no "milagre econômico", o esgotamento do padrão de financiamento nos anos 1980, associado à hiperinflação (Gráfico do IGP-DI atingindo 1.782% em 1989), ao endividamento dos governos estaduais controladores e à falência de bancos estaduais como o PRODUBAN, culminou na liquidação extrajudicial do BRDE decretada pelo Banco Central em 07 de março de 1989.
A instituição permaneceu paralisada por quase três anos até ter seu encerramento revogado em 31 de janeiro de 1992, quando foi devolvida à gestão compartilhada dos três estados sulistas. O banco implementou governança rotativa rigorosa na presidência entre os estados e reestruturou seu corpo funcional, reconquistando gradualmente a credibilidade junto aos mercados financeiros e ao BNDES.
A trajetória financeira do BRDE ao longo das últimas três décadas pode ser dividida em três fases estruturais distintas:
| Exercício | Contratações Globais (R$ mi) | Desembolsos SC (R$ mi) | Lucro Líquido (R$ mi) | Patrimônio Líquido (R$ mi) | Empregos Gerados/Mantidos |
|---|---|---|---|---|---|
| 1994 | R$ 1.100 | R$ 442 | R$ 485,7 | R$ 2.400 | 41.000 |
| 1999 | R$ 835 | R$ 400 | - R$ 165,4 | R$ 1.800 | 15.000 |
| 2004 | R$ 1.900 | R$ 680 | R$ 235,8 | R$ 2.450 | 44.800 |
| 2009 | R$ 5.200 | R$ 1.200 | R$ 120,9 | R$ 2.500 | 55.000 |
| 2014 | R$ 4.800 | R$ 1.150 | R$ 370,6 | R$ 3.600 | 38.000 |
| 2019 | R$ 2.500 | R$ 1.050 | R$ 371,0 | R$ 3.750 | 38.200 |
| 2022 | R$ 6.600 | R$ 1.160 | R$ 493,1 | R$ 4.200 | 53.000 |
| 2024 | R$ 5.900 | R$ 1.780 | R$ 472,4 | R$ 4.520 | 90.000 |
O estado de Santa Catarina tem recebido parcela expressiva dos financiamentos do BRDE. Em 2024, os desembolsos no território catarinense somaram R$ 1,78 bilhão, irrigando cooperativas agropecuárias, pequenas e médias indústrias e a cadeia de infraestrutura logística.
Destaca-se a atuação do banco como agente mandatário e gestor técnico de políticas públicas estaduais estratégicas, tais como o Fundo de Apoio aos Municípios (FUNDAM), que viabilizou mais de R$ 1 bilhão em obras municipais urbanas, e a operacionalização do Pronampe Emergencial SC, subsidiando taxas de juros para empresas atingidas por intempéries climáticas.
Outro marco divisor ocorreu no exercício de 2024: com o pioneirismo nacional na emissão de Letras de Crédito do Desenvolvimento (LCD) — captando R$ 266,6 milhões logo na semana inicial — e a emissão de Letras Financeiras (LF), o BRDE reduziu sua dependência histórica do BNDES (cuja fatia de repasse caiu para 52,7% em 2024), captando expressivos recursos junto a organismos internacionais como AFD, BID, CAF, BEI, NDB e BIRD.
A análise histórica de 1992 a 2024 evidencia que o BRDE transcendeu a condição de mero operador financeiro de balcão para consolidar-se como pilar de coordenação e fomento econômico no Sul do Brasil. Apresentando índices de Basileia robustos (superiores a 17%), inadimplência inferior a 1% e mais de 80% das operações aderentes às metas de sustentabilidade da ONU, o banco demonstra que instituições financeiras públicas geridas com rigor técnico e governança cooperativa são ferramentas insubstituíveis para catalisar o desenvolvimento socioeconômico estadual.
CARDOSO DE MELLO, J. M. O capitalismo tardio. São Paulo: Brasiliense, 1988.
FONSECA, Pedro C. Dutra. BRDE: da hegemonia à crise do desenvolvimento. Porto Alegre: BRDE, 1988.
GOULARTI FILHO, Alcides. Formação Econômica de Santa Catarina. 2. ed. Florianópolis: Editora da UFSC, 2007.
MAZZUCATO, Mariana. O estado empreendedor: desmascarando o mito do setor público x setor privado. São Paulo: Portfolio-Penguin, 2014.
SCHUMPETER, Joseph A. Teoria do desenvolvimento econômico. São Paulo: Nova Cultural, 1997.